Resenha: A Inquilina de Wildfell Hall - Anne Brontë
Título do livro: A Inquilina de Wildfell Hall
Autor(a): Anne Brontë
Editora: Penguin Companhia
Número de páginas: 624
Está disponível no Kindle Unlimited? Não
Sinopse: Gilbert Markham está intrigado com Helen Graham, a bela e misteriosa mulher que acabou de se mudar para Wildfell Hall com o filho e sem o marido. Gilbert é rápido em oferecer amizade, mas, quando o comportamento recluso da inquilina começa a ser motivo de fofoca na cidade, ele se pergunta o que mais pode haver na história daquela família. Quando Helen permite que Gilbert leia seu diário, ele começa a entender os detalhes obscuros de sua vida, seu casamento desastroso e a situação em que a vizinha se encontra. Narrado com precisão e carisma, A inquilina de Wildfell Hall é uma descrição poderosa da luta de uma mulher por independência na Inglaterra vitoriana.
Resenha: Helen Graham é uma jovem viúva que acabou de se mudar com o filho para a mansão de Wildfell Hall, uma construção meio decadente e totalmente isolada. Não fosse o bastante, seu comportamento recluso e seu modo peculiar de criar o menino acabam suscitando ainda mais suspeitas e fofocas da vizinhança sobre sua verdadeira identidade, fazendo com que vários boatos maldosos começassem a se espalhar, sobretudo no que diz respeito ao seu relacionamento com o locatário.
Gilbert Markham um jovem fazendeiro local, por sua vez, se recusa terminamentemente a acreditar neles. Em parte porque criou uma relação de amizade muito bonita com Helen que com o passar do tempo acaba virando um grande amor, em parte porque também se afeiçoou ao filho dela, Arthur, e não acredita que a mãe do menino possa ser essa mulher perversa que todos querem fazê-lo acreditar que seja.
"O senhor gostaria que incentivássemos nossos filhos a provar todas as coisas por experiência própria, mas nossas filhas não tirassem proveito nem mesmo das experiências alheias. Já eu preferiria que ambos se beneficiassem igualmente das experiências alheias e das normas impostas por autoridades superiores, assim saberiam de antemão que devem rejeitar o mal e escolher o nem, e não exigir nenhuma prova experimental para lhes ensinar o mal da transgressão."
Desconsolado, ele acaba por colocá-la contra a parede a fim de descobrir os segredos de sua chegada à Wildfell Hall, quando ela lhe confia seu diário pessoal para que descubra todas as desventuras e as verdadeiras razões que a fizeram agir da forma que agiu e que, principalmente, a levaram até a mansão..
Transitando entre presente e passado, a obra também é dividida entre dois narradores: Gilbert Markham e Helen Graham. Através dos pensamentos dele e do diário dela, o leitor vai descobrindo aos poucos o que se passa na cabeça e vida desses dois personagens, aparentemente diferentes, mas que acabam desenvolvendo uma relação bonita, primeiro de amizade, e depois de amor, mas que não são o foco da narrativa.
"Quando sua opinião e seus sentimentos correspondiam aos meus, era seu extremo bom senso, seu gosto e sentimento refinado que me deleitavam; quando divergiam, era sua audácia intransigente no reconhecimento ou na defesa dessa diferença - sua sinceridade e agudeza que provocavam minha imaginação: e mesmo quando me zangava com suas palavras ou olhares indelicados, e suas conclusões severas a meu respeito, só ficava ainda mais insatisfeito comigo mesmo por ter lhe causado uma impressão desfavorável, e ainda mais sequioso de justificar meu caráter e minha disposição aos olhos dela, e se possível, de conquistar sua estima."
Publicado em 1848, A Inquilina de Wildfell Hall poderia ter sido publicado em 1948 ou 2008, que não faria diferença. Os relatos de um casamento abusivo marcados pela violência, misognia e tortura psicológica, infelizmente, não poderiam ser mais atuais. Através dos relatos de Helen, o leitor acompanha em detalhes os seus sofrimento e de outras mulheres em seu convívio.
Numa sociedade onde a única forma de ascensão feminina era através dos laços matrimoniais, Anne não economiza nas críticas aos homens libertinos, a pressão social e às autoridades religiosas da época. Porque apesar de ser o livro das irmãs Brontë com mais referências à fé cristã, isso não impediu a autora de criticar o julgamento daqueles que se diziam homens e mulheres de Deus e que nada fizeram para apoiar ou ajudar essas mulheres.
" "Bom!", disse ela, após uma breve pausa. "Tenho que dizer, Helen, que imaginei que você tivesse mais bom senso - e bom gosto também. Como consegue amar um homem desses, não sei, ou que prazer consegue ter na companhia dele, porque 'Que comunhão pode haver entre a luz e as trevas? Que relação entre o crente e o infiel'?"
Para mim, o ponto alto da narrativa foi acompanhar a forma como Helen deposita todas as suas esperanças na Providência, sendo a sua fé a principal justificativa para todas as suas ações, até mesmo aquelas em que a gente não concorda muito. A evolução dela, de uma mulher que sacrificou muito de si mesma em prol do casamento e do bem-estar do marido, convenções sociais e no que ela acreditava ainda ser possível salvar, para uma mulher que teve a coragem de fazer o que muitas não tiveram baseada apenas na sua fé em Deus foi totalmente inspirador. Sem falar na forma como ela não deixou que nada alterasse seu caráter e convicções, mesmo quando as tentações eram diversas.
Anne foi revolucionária ao abordar também o tema do alcoolismo, algo que já era um problema na época e qual os seus efeitos na vida daqueles que convivem com quem possui esse vício. No prefácio à segunda edição a autora defende sua obra dos comentários e críticas crueis da época, e existem até boatos que o livro foi escrito em resposta ao "Morro dos Ventos Uivantes", o que teria acontecido se Catherine e Heathcliff tivessem se casado e ficado juntos, o que faz muito sentido na minha opinião.
" "Se la lhe dá o coração, declarei, "você deve aceitá-lo com gratidão, e usá-lo bem, e não despedaçá-lo e rir dela, porque ela não pode arrancá-lo fora." "
A Inquilina de Wildfell Hall é uma obra atemporal, que me provocou diferentes sentimentos. Raiva, angústia e dor perante às injustiças, que sabemos que ainda existem, mas ao mesmo tempo foi um sopro de esperança (e que me arrancou algumas lágrimas) ao retratar uma mulher corajosa que por amor a Deus e a seu filho conseguiu se livrar das amarras de um casamento amargo e de um homem horroroso e abusivo. E tudo isso, movida pelo que ela sempre cultivou durante toda sua vida: um caráter integro e sua fé. Ganhou um espaço, mais do que merecido, na minha lista de favoritos.
" "Essa flor é tão cheirosa quanto as flores do verão, mas ela aguentou privações que nenhuma delas suportaria: a chuva fria do inverno bastou para nutri-la, e o sol fraco bastou para aquecê-la; os ventos gelados não a branquearam, nem quebraram seu caule, e a geada intensa não fez com que murchasse. Veja, Gilbert, ela continua viçosa e exuberante como só uma flor consegue ser, mesmo agora, com a neve fria nas petálas. - Você a aceita?" "




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